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Era Uma Vez Um Rapaz Que Queria Ser Um Urso Polar

Por JASON KEITH FERNANDES

 

For the English version, see.

Texto da apresentação do livro Diante de Ti, Os Meus Caminhos, autobiografia do teólogo Tomáš Halík na Capela do Rato, Lisboa, 22 Nov 2018.

Diante de Ti, Os Meus Caminhos

Tomáš Halík

Paulinas Editora, 2018, Prior Velho, 432 pp., 23,00 € (PB)

ISBN 9789896736620

 

O que é que podemos aprender com a história do um rapaz que queria ser um urso polar? Essa é também a preocupação de Tomáš Halík nas primeiras páginas da sua autobiografia intitulada Diante de Ti, Os Meus Caminhos. Será que a sua autobiografia seria somente fruto da sua própria vaidade ou poderiam as lições aprendidas no curso da sua vida ser úteis para o leitor? Depois de ter lido o livro, posso confirmar que de facto a história do rapaz que não cresceu para ser um urso polar nem presidente do seu país, apesar de ter tido oportunidade, tem muito para nos oferecer. Em grande parte organizados cronologicamente, os treze capítulos do livro encontram-se ligados através do tema dos caminhos, os quais, enquanto ligados à experiência duma pessoa, ecoam várias preocupações universais.

 

Somente para cumprir as normas duma presentação formal do um livro, permitam-me rapidamente enumerar os seus capítulos. Sem surpresa, o primeiro, O caminho para a fé, discute as circunstâncias do nascimento de Halík e o contexto da sua vida inicial. Uma vida que poderia ser descrita como imersão num catolicismo cultural, onde a fé é somente um padrão cultural, em vez de fazer parte de um exercício quotidiano. No final deste capítulo, porém, percebemos como Halík se comprometeu mais substancialmente com a Igreja. Essa atração teve um contexto: a maneira como a Igreja Católica estava a ser reprimida pelas autoridades comunistas da Checoslováquia. O segundo capítulo, O caminho da primavera capta os sentimentos na primavera do 1968:

foi a primavera da minha vida, a primavera da minha fé, a nova primavera da Igreja depois do Concílio Vatiano II, e tudo ao nosso redor e em nós foi impregnado pela a inebriante fragrância primaveril da esperança  de um desanuviamento político e duma vida mais livre (p.54).

 

Essa primavera política foi efémera, porém, e acabou com a ocupação militar da Checoslováquia pelo exércitos dos países do Bloco Soviético, situação que lançou os fundamentos para a história que será contada. O título O caminho para o sacerdócio deixa o conteúdo do capítulo claro, sendo seguido pelo capítulo O caminho da clandestinidade que narra não só as lutas pessoais de um padre clandestino, mas tambem reflete sobre as implicações de ser, em primeiro lugar, um padre num cenário marcado pela repressão e pela perseguição. Dado que a aurora vem depois da cada noite, por mais escura que seja, O caminho do despertar narra o eventual relaxamento que o comunismo teve sobre os países da Europa Central e do Leste, e o papel da Igreja em facultar esse abrandamento, desafiando o regime e também motivando espiritualmente a população através de um Decénio para comemorar o centenário de Santo Adalberto. O caminho da catarse começa com o primeiro ano do Decénio, o ano da Santa Inês, que foi também o ano da sua canonização. Foi próximo desta altura que os protestos em Praga começaram, os quais iriam eventualmente mudar o rosto do país para sempre.

 

A discussão presente no capítulo O caminho da transição interessou-me bastante por mostrar a maneira como o dia prometido da libertação política não implicou que a Igreja tivesse necessariamente um espaço amplo em que pudesse operar. Ao contrário, resultou na irrupção de cada vez mais desafios. O Caminho da Fundação narra a história da criação da Academia Cristã Checa, um sonho antigo de Halík que procurava restabelecer a administração espiritual dos estudantes na Igreja do Santíssimo Salvador em Praga e o lugar dos diálogos ecuménicos e inter-religiosos. O Caminho da Noite descreve a experiência traumática quando Halík enfrentou a oposição do chefe do departamento de Teologia. O Caminho da Política narra as consequências sofridas quando o nome do autor surgiu como um dos possíveis sucessores a Vaclav Havel como Presidente da República. Devo sublinhar que a parte que gostei mais ocorreu quando Halík indica que decidiu

não dizer um não absoluto. Um não absoluto aplica-se apenas a coisas que são realmente moralmente erradas em si mesmas. O não que disse à polícia secreta quando me tentou dobrar para uma cooperação. Aceitar uma candidatura presidencial é certamente arriscada, incomum, etc. etc., mas não é imoral. (p.283)

 

Os caminhos para mundo descreve as viagens de Halík aos quatro cantos do mundo,  os quais aparecem sempre como momentos de aprendizagem. O capítulo final intitula-se O caminho para o silêncio eterno.

 

No seu ensaio “A Morte do Autor” Roland Barthes escreve que dar o texto a um autor e atribuir-lhe apenas a correspondente interpretação seria impor-lhe um limite. Respeitando, portanto, Barthes, e Halík também, o que vou fazer nesta apresentação será oferecer as minhas próprias respostas ao livro, e falar através das várias localizações que habito enquanto católico de Goa, na Índia, atualmente a viver em Portugal. Esta apresentação não será, creio eu, inadequada, dado que tanto Goa como a Índia se encontram referidos no texto, provavelmente mais Índia do que Goa.

 

Havia dois aspetos da descrição dos anos iniciais da sua vida com que me identifiquei instintivamente. O primeiro trata de uma sociedade e Igreja sob opressão, e a segunda as mudanças ocorridas depois do Concelho Vaticano II e as alterações políticas que as acompanharam. Em Goa, que foi invadida pela Índia em 1961, os anos das duras alterações políticas, a asfixia da cultura católica e as alterações do Concelho vieram em rápida sucessão. É verdade que a sociedade cristã em Goa e Índia, em grande parte, não se confrontaram com o tipo da repressão com que a Igreja checoslovaca teve que lidar. Todavia, a repressão na Índia foi mais insidiosa, escondendo-se por detrás da retórica da democracia. Os cristãos não foram assim somente forçados a viver dentro das restrições de um poder cada vez mais fascista, mas nos cantos do país onde havia pouco ou nenhum foco. Cristãos, as suas igrejas e bens foram assim atacados ferozmente. Este tipo da repressão não pôde deixar de ter um impacto profundo na vida da Igreja, tal como aconteceu na Checoslováquia.

 

Por um lado esta repressão obrigou-nos, clero e leigos, a funcionar com um inimigo na mente, ao extremo de que quando o inimigo já lá não se encontrava, fomos à procura de outro para estabelecer a ortodoxia como um porto seguro. Esta busca teve impactos devastadores, impedindo a possibilidade do diálogo, o qual se encontra no coração do contrato social. Estas foram as circunstâncias que garantiram que Halík, que estava a ensinar na faculdade da teologia, tenha lsido evado a encontrar resistência por parte do chefe do seu próprio departamento, acabando com a sua saída para a faculdade de letras onde ainda se mantém atualmente.

 

Outra consequência de viver sob opressão implica lidar com aqueles que colaboram com “o inimigo” ou os poderes que controlam o estado. Halík documenta este aspeto dentro da igreja institucional da Checoslováquia. A colaboração surge, porém, sob várias formas, e gostaria de sugerir que no caso indiano, foi através do muito mal entendido projeto de inculturação. No capítulo Os caminhos para o Mundo Halík refere a maneira como este projeto foi articulado na Índia. Halík observa que havia nas várias dioceses indianas a tentativa de tornar a liturgia mais consonante com as práticas locais. Ele conta que a determinada altura foi convidado a dançar num estilo checo durante a liturgia, tal como os locais. Felizmente Halík declinou o convite sugerindo que a dança não era a maneira como os checos se expressavam durante a liturgia! Na minha opinião, um dos maiores problemas com a inculturação na Índia prende-se com a tentativa de a igreja institucional alinhar com a cultura bramânica do estado indiano. Portanto, o que ela fez foi rejeitar as culturas das castas não dominantes, minar as culturas europeias que já faziam parte da cultura indígena e musealizar as práticas culturais dos grupos tribais. A divulgação acontece através dos diálogos inter-religiosos em grande parte apenas com o Hinduísmo, e quase nenhum com Islão, o que parece apontar a maneira como, consciente ou inconscientemente, a Igreja institucional tenta dialogar com poder.

 

Neste contexto, Halík apresenta-nos a inculturação – tal como tantas outras pessoas perspicazes, como por exemplo o Papa Bento XVI – não como a adoção de práticas peculiares, mas sim como um processo de diálogo com as pessoas à nossa volta, dando testemunho dos valores do evangelho. Talvez um ótimo exemplo deste processo de inculturação e evangelização sejam as conversas iniciadas pela Academia Cristã Checa, a qual lançou debates sobre vários temas, tais como o racismo e o nacionalismo, a constituição e o novo sistema jurídico político da energia, as reformas na educação e na saúde, chegando a tocar em temas sensíveis, como a homossexualidade. Estes debates vão além dos convites habituais, tomando lugar longe dos centros de privilégio, como a capital nacional em Praga.

 

Conversa, ou diálogo, é talvez, o leitmotif deste livro.  Tenho que confessar que fiquei particularmente impressionado com dois episódios em particular. O primeiro, quando em Roma Halík viajou ao centro da Opus Dei familiarizando-se com a instituição, e o segundo quando visitou Écône, onde assistiu à consagração dos bispos pelo Bispo Lefebre. Para mim estes episódios marcam a atitude de um verdadeiro académico: alguém que não baseia a sua opinião no que ele/a ouve, formando-a depois de cuidadosa investigação e de reflexão sobre o assunto. Como Halík afirma na página 234 “Tudo precisa de ser visto de vários ângulos”. Halík tambem recorda o Padre Josef Zverina – uma das figuras mais importantes na sua vida – que costumava dizer que o princípio católico básico é “não só, mas também”, sugerindo que esta atitude, marcada pelo ponderação e abertura às nuances, é fundamentalmente católica. Talvez haja algo mais aqui. A minha impressão é que a história de Jan Huss, o teólogo checo do século XIV que foi acusado e executado acusado de heresia, influenciou esta atitude por parte de Halík. Este episódio marcou não somente o jovem Halík, mas enfatiza a importância de estar aberto ao diálogo – o que poderia ter evitado a morte de Huss – e especialmente a necessidade de estabelecer comunicação com grupos evangélicos que se alicerçam nas memórias do movimento Hussita.

 

Um dos temas que percorre este livro é a questão: qual é afinal o papel de um padre? A pergunta não é tão estranha assim considerando que, como padre clandestino na Checoslováquia comunista, Halík não poderia utlizar os marcadores tradicionais de um padre. Vejamos a possível imagem do novo padre nas palavras do Jesuíta Mikulasek a Halík quando o autor falou com o primeiro sobre o seu desejo de entrar no sacerdócio “o sacerdote do futuro deveria ter duas profissões, trabalhando numa profissão secular e, aí estar principalmente disponível para as pessoas sem fé e para as que andam à procura” (p. 96). Mais tarde, nas páginas 258 e 259 Halík, como um psicólogo treinado, avisa-nos sobre os perigos de cultivar em nome do ideal romântico de um sacerdote santo e a pressão psicológica causada pela interiorização deste ideal no decorrer da formação no seminário”. Noutras partes do livro, mais uma vez salientando o facto de que os bispos e padres são também pessoas como os leigos, ele imagina o que as pessoas pensariam se elas vissem os seus bispos em fatos de banho a brincar na praia.

 

Se estes foram os aspetos com que me identifiquei, houve também partes do livro com as quais não posso concordar. A autobiografia de Halík encontra-se marcada por uma forte identificação com a nação. Como um católico, e um particularmente sensível ao modo como os vários grupos na Índia foram inferiorizados pelo estado, esta intensa identificação com a nação não é algo que me atraia. De facto, frequentemente me questiono se o entrelaçamento entre a Igreja e Nação tão comum na Europa não contraria a vocação universal da Igreja de tornar discípulos de todas as nações (Mt. 28:19) e de garantir que, tal como aparece nos Gálatas 3:28, “Não há nem judeu nem gentio, escravo ou homem livre, homem ou mulher”, mas uma nação em Jesus Cristo. É correto que a Igreja se identifique com o local. Apesar de tudo, como antropólogo, reconheço que é aí que a fé se enraíza. Não obstante, devemos dar o nosso melhor para garantir que este local se encontra ligado com o nacional, o último sendo o produto de antigos e continuados projetos de violentas punições.

 

Neste sentido, termino com uma observação final sobre outra ideia que me ocorreu e que se relaciona não apenas com o ênfase que Halík coloca no diálogo, mas que nos toca a nós em Portugal.

Por outro lado, apercebi-me tambem de que a tão condenanda sociedade pluralista secular, com os seus ideais iluministas de tolerância, direitos humanos e liberdades civis, protege a Igreja da tentação das infelizes recaídas do passado. É bom que vivamos numa sociedade democrática, não anseio de todo por um «Estado católico». Onde quer que a fé se torne numa ideologia estatal, eu serei, em nome da fé e em nome da liberdade, o primeiro dissidente.” (pp. 253- 254)

 

Ler estas linhas recordou-me do papel da Igreja Católica no debate sobre a eutanásia neste país. Por muito que admita os problemas éticos associados à eutanásia, reconhecendo-o mesmo enquanto pecado, houve momentos em que senti que a Igreja Católica – ou os católicos em Portugal – ultrapassou o limite, chegando demasiado perto de uma identificação do país com o Catolicismo. O nosso trabalho acredito que seja tornar a posição moral clara, de a divulgar, mas de nos lembrarmos que assumir a legalidade do estado como sendo a única legitimamente possível em sociedade, é correr o risco que marcou as diferentes organizações políticas do século XX – seja o comunismo, os fascismos, os liberalismos precoces, ou de facto, o nosso próprio estado corporativista em Portugal, personificado no Estado Novo. Será importante relembrar os intelectuais católicos que precederam estas situações e as suas vozes que se insurgiram frequentemente contra a centralização de todo o poder no estado, argumentando a favor da sua dispersão pela sociedade.

 

Termino aqui, mas gostaria primeiro de vos agradecer a atenção dispensada, ao Fr. António Martins, a oportunidade de apresentar este livro, e a Fr. Tomáš Halík por partilhar a sua história de vida connosco.

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